O Reino de Deus como horizonte da missão

A missão de Jesus tem como horizonte o Reino de Deus como boa-notícia da justiça aos pobres e oprimidos.Colocar os pobres como centro da vida/missão faz parte da essência mesma da Igreja. (Combonianos)

06 de Outubro de 2017

 

A Igreja é a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus, daqueles que Ele chamou para si para enviá-los em missão (cf. Mc 3,13). A missão da Igreja é evangelizar. E nisso, ela continua a missão de Jesus. Porém, quando falamos de evangelização é preciso entender bem o que isso significa. Como nos recorda Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi (n.19), não se trata de simplesmente “pregar o evangelho” a um número cada vez maior de pessoas, “mas de chegar a atingir e como que modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesses, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade”. Isso é importante, especialmente nos tempos atuais, quando verificamos que mesmo dentre os “evangelizados” se observam muitas formas de preconceito, marginalização e exclusão que Jesus havia combatido em seu tempo.

 

Talvez a maior dificuldade de entender a missão da Igreja esteja no seu conteúdo. Qual o conteúdo da missão? Ou melhor, qual o horizonte da missão? Como nos diz o papa Francisco, “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Evangelii Gaudium, n. 176). Portanto, o horizonte da missão da Igreja não é outro senão o Reino de Deus. E nisso, ela está, de fato, realizando a mesma missão de Jesus. Esse foi sempre o horizonte de sua missão: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Reino de Deus indica-nos que é Deus quem reina e isso acontece quando sua vontade se realiza em nós e por meio de nós. Não se trata simplesmente de um lugar específico, mas do governo de Deus em ato que transforma injustiça, opressão e miséria em justiça, direito e fraternidade. O Reino de Deus é boa-notícia que é fonte de vida, que produz vida digna para todos, sobretudo para os que têm sua vida negada. Por isso mesmo, o reino de Deus tem como característica fundamental a justiça aos pobres e marginalizados desse mundo, sinal do senhorio definitivo de Deus.

 

É assim que Jesus entende sua missão. Com as palavras de Isaías (61,1-2), Ele apresenta-se como anunciador e realizador do Reino, na força do Espírito Santo (Lc 4,18-19): “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”. Esse é o programa de missão de Jesus e nesse programa ocupam lugar central os pobres e oprimidos. É por isso que o exegeta alemão Joachim Jeremias nos afirma de modo tão eloquente que o “traço decisivo” do Reino de Deus está “na oferta de salvação feita por Jesus aos pobres”. Mais: “O Reino pertence unicamente aos pobres” (Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos. pp.176.187). É isso também que nos diz Bento XVI, no discurso ao episcopado brasileiro em 2007, retomado por Francisco: “os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho” (EG 48). Por isso também, “a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer” (EG 48).

 

Se a missão de Jesus tem como horizonte o Reino de Deus como boa-notícia da justiça aos pobres e oprimidos e se a Igreja existe para continuar a missão de Jesus, também esse deve ser o horizonte de sua vida e missão. Embora pareça algo óbvio afirmar que a Igreja existe para continuar a ação de Jesus, a prática pastoral da Igreja muitas vezes nos leva a desconfiar que esse horizonte não seja tão claro assim. Basta dar uma olhada naquilo que era o primordial na vida de Jesus e o que é considerado mais importante em nossa prática. Por isso, precisamos, ao mesmo tempo, manter os olhos fixos n’Ele (cf. Hb 12,2) e estar unidos e agindo como Ele: “Quem diz que permanece com Ele deve agir como Ele agiu” (1Jo 2,6). A vida/missão de Jesus deve ser o critério e medida da ação evangelizadora da Igreja.

 

E se na vida/missão de Jesus, os pobres ocupam o lugar central, também deve ser assim na vida/missão da Igreja: “Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres, entendida como uma ‘forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja’[João Paulo II]”. Recorrendo e fazendo sua a afirmação de Bento XVI, diz Francisco: “esta opção ‘está implícita na fé cristológica naquele Deus que Se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza’ [Bento XVI]. Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres” (EG 198).

 

Não se trata de algo acrescentado à fé e à missão da Igreja, mas de algo constitutivo: permanecer “surdos” ao clamor dos pobres e não solidarizar-se com eles implica em estar “fora da vontade do Pai e do seu projeto” e “influi diretamente sobre a nossa relação com Deus” (EG 187). Por isso, colocar os pobres como centro da vida/missão faz parte da essência mesma da Igreja: “‘[...] o serviço da caridade é uma dimensão constitutiva da missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua própria essência’ [Bento XVI]. Assim como a Igreja é missionária por natureza, também brota inevitavelmente dessa natureza a caridade efetiva para com o próximo, a compaixão que compreende, assiste e promove” (EG 179).

 

Portanto, se a opção pelos pobres é algo que pertence constitutivamente à missão da Igreja, tal tarefa deve ser assumida por todos: “ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências” (EG 201). Por isso, “qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja inclusão de todos [...] facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios” (EG 207).

 

Não esqueçamos, pois, o horizonte que rege nossa vida/missão nesse mundo. Tendo sempre o Reino de Deus como justiça aos pobres e marginalizados, não correremos o risco do esvaziamento de nossas orações, pregações, discursos, gestos e ações pastorais. Os pobres e marginalizados são o critério de julgamento de nossa ação pastoral e o “protocolo do nosso julgamento”, como bem nos recorda Francisco. São eles os juízes de nossas orações, discursos, reflexões e ações (cf. Mt 25,31-45): “cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

 

*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) – Belo Horizonte/MG; professor de Teologia Sistemática na Faculdade Católica de Fortaleza; presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE.

 

Fonte: http://domtotal.com

 

 

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